sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Adeus,

Não quero viver à tua imagem, nem sob a tua protecção. Estou farto das putas das tuas histórias, que me tentam assustar e mostrar-me que os lobos assombram as noites lá fora. Não acredito nelas. E sabes porquê? Porque depois estragas tudo e fazes-me entender que afinal, os monstros são sempre aqueles que estão ao nosso lado. E pouco me importa se me abafas a cara num acto de carinho ou de agressividade, é-me igual. Já não noto a diferença.
Posso não ser o melhor filho, posso até mesmo nunca chegar a ser motivo de orgulho para ti, mas tu também nunca te mostraste um herói para mim. E as dúvidas invadem-me e pergunto-te, em silêncio: alguma vez tentaste?
Os teus beijos já não me sabem a nada. E desconheço o conforto dos teus abraços. Volta a ficar em silêncio com esses olhos a brilhar de arrependimento, que não me basta. O teu orgulho supera a tua credibilidade.
Vou viver para um pequeno apartamento de uns amigos meus. Lobos, que me conquistaram pela sua monstruosa ternura. E não te preocupes. Se eles me atacarem eu retribuo, com carinho. Tal como me ensinaste.
Começo hoje a mudar-me. Parte por parte de mim. Até já não me teres.
Diz à mãe para não chorar, que eu volto para a visitar.
Desculpa-me. E ainda te amo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lençois de penas de pavão

Diziam-te os sons da sola de madeira sobre o chão de mármore preto, que eu estava presente. E invadias-me o quarto, em passos de um feroz reprimido. E encontravas-me. Nu. Calçando apenas os tais botins de camurça e sola de madeira, que tanto te custavam limpar.  Eu, sentado naquela minha cadeira, vestida de ouro e com globos sob as suas pernas, renegava-te um olhar, desprezava-te a face. Mas arrependido, sorria e chamava-te. E num tom áspero e delicado ordenava-te que me limpasses, mais um vez, os botins. E tu... rebaixavas-te diante mim e sussurravas, num tom revolucionário, a tua ignorância por gostares de alguém tão fútil. E todas as noites, sob os lençois de penas de pavão, te agarrava pelo pescoço, te beijava, e te dizia: "Não é ser fútil, é ter poder sobre ti."

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Mundos amarrotados

Entrei em passos dormentes pela aquela porta perra que parecia agora ter-se abafado. E olhei para ti, sentada no sofá verde escuro. 
As rugas que sustentavas com o teu belo sorriso teriam desmaiado, e dos teus olhos de cristal restava um brilhar sombrio. Abracei-te com força e beijei-te o rosto de seda amarrotada. E tu, choraste. Quebraste-me as forças, e o coração tornou-se pequenino. 
Peguei na tua mão direita, que segurava o lenço encharcado, e disse-te quaisquer parvoíces que te pudessem consular. Mas, decidida, disseste apenas querias o teu príncipe. O teu amor de cinco décadas.
Confessaste-me não teres desfeito a vossa cama. Que te deitavas por cima dela, e te cobrias com um cobertor. Querias esperar que o teu príncipe voltasse para que pudessem dormir os dois, juntos. Mas ele não voltou.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Fala, a dor.


"Tenho a pele enrugada, e os olhos pesam-me, é verdade. Há quem deseje até, que eu não dure muito. Mas eu que sou mãe de todos vós, eu que vos torno gente, e vos fortifico...porquê todo esse desapego a mim? Esse não querer-me? Ingratos!" 
Fala, a dor.

Sexe avec du champagne

Admito. Ainda te sinto húmida, e te oiço a engolir a seco. Ainda te sinto o corpo trémulo, pressionado no meu. E ainda desejo sentir-te a respiração abafada nos meus ouvidos. E até já me acostumei aos teus gemidos, patetas, que me obrigam a rir discretamente. E se me continuar a render, ainda te desejo mais. 
Nunca te disse, mas a luxúria sempre foi minha amante.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Rituais de acasalamento


Caminhavas de forma silenciosa diante o céu. 
O sussurrar das folhas secas vestidas de fogo, contavam-me que as pisavas de forma delicada. E o vento visitava-me, hilariante e desejoso de me contar as cócegas que o teu corpo lhe provocava. Eu, de movimentos brutos e voz destemida, cantava e dançava. Mostrava-me guerreiro, rei do submundo. E esperava por ti.
O olhar atento dos cervos, e o recolher das corujas, diziam-me agora que estavas perto. Dei três passos firmes e deixei-me petrificar. E tu vieste até mim, dançando, em passos muito instáveis e seguramente leves. 
Lançaste-me um olhar fixo, e eu rugi-te. Mostrei-me capaz de tomar-te o corpo. E tu, superior, mostras-te capaz de tomar-me a alma.
Serias tu a minha deusa, e eu o teu deus.